Histórias cotidianas

Não vou ter alta

Era uma tarde quente, de um verão que teimava em ficar. O calor daquele dia não estava ajudando e o jaleco parecia ter mil camadas de tecido, servindo de estufa ambulante.

Boto um sorriso na cara, esqueço a prova que preciso estudar pro dia seguinte e parto para a enfermaria: “Bom dia, é o Sr. José*? Muito prazer! Sou a fulana de tal, aluna do segundo ano de medicina. Podemos conversar um pouquinho?”

Mal sabia ele que nosso “pouquinho” duraria um pouco mais do que gostaríamos…

Nossa conversa começa fluindo bem e animada. Explico pro Sr. José que nessa fase do curso precisamos aprender a conversar com o paciente e que, tão importante quanto saber reconhecer as doenças, é saber como fazer as perguntas certas a ele. E era pra aprender a fazer esses questionamentos que estava ali conversando.

Assim que termino de falar isso, entra a sua médica, se apresenta e o residente começa a passar todo o caso. Pedi autorização para continuar ali e ela, muito educadamente, permitiu e ainda foi me ensinando tudo o que estava fazendo.

Visita de médico na enfermaria é muito rápida. Geralmente já sabe do caso e vai apenas para conferir se o paciente está bem e de acordo com o resultado dos exames. Não foi diferente com o Sr José e, em pouco tempo, ela saiu e pude retomar a nossa conversa.

Porém, algo mudou depois disso e o Sr José já não parecia o mesmo que comecei a conversar. Continuou respondendo minhas perguntas, mas sem ânimo algum. Em determinado momento me perguntou, tristemente, se estava terminando e eu, de coração partido, acelerei os exames físicos e encerrei.

O ajudei a colocar a camisa novamente e, enquanto isso, disse que saía triste por vê-lo desanimado desse jeito. Foi então que desabafou: “Estou triste porque percebi que não vou ter alta hoje”. Chegou a essa conclusão quando a médica passou e foi embora sem dar muito mais explicações.

Então expliquei que precisava ficar porque, provavelmente, faria mais exames. Pedi para ter um pouco mais de paciência para que consigam tratar seu problema da melhor maneira. Além disso, de nada adiantava ele ir para casa do mesmo jeito e não conseguir fazer qualquer atividade. Ele concordou com a cabeça, mas sem muita convicção.

Antes de me despedir, agradeci imensamente por ter tido a paciência para nossa conversa e por ter permitido que eu
fizesse todos os exames físicos que precisava. Por fim, falei que aprendi muito com ele e que, se um dia eu for uma grande médica, ele poderia ficar feliz porque teve uma grande contribuição para isso. Foi então que o Sr José, que encontrei lá no início dessa narrativa, retornou, colocou dois brilhos nos olhos e abriu um sorriso humilde e sincero que jamais vou esquecer, dizendo: obrigado. Pois digo mais: eu que agradeço Sr José! 😢

*Nome fictício

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