Casos clínicos, Histórias cotidianas

Onde eu estava?

Primeiro dia em que acompanhei atendimento em UBS. Medo, insegurança… Tudo isso foi passando conforme o médico que estava me orientando foi atendendo com calma, me questionando, mas sem pressionar.

Entra a dona Áurea. Uma senhora com sorriso largo, com roupas simples, muito ajeitada e cheirosa. Percebia-se de longe o quanto esse momento era importante pra ela.

– Há quanto tempo a senhora não aparece! Mais de um ano que não nos vemos.

– Pois é! A rotina de cuidar dos netos tem consumido todo o meu tempo. A gente se oferece pra ajudar, mas depois se arrepende por não poder fazer mais nada. Ah! Que senhora fofa.

– E o que trouxe a senhora aqui hoje?

Ela sempre sorrindo, falando com bastante desenvoltura. Eu já estava apaixonada por ela, querendo adotar como minha avó uma senhora tão animada!

– Um tempo atrás senti uma dor no peito. Foi muito forte. Veio “do nada”, assim como foi embora também.

Nossa! Será que infartou? Epigastralgia? Dor muscular? E minha cabecinha de estudante já ia abrindo o leque com as opções que já tinha estudado.

– Junto com essa dor, a senhora sentiu mais alguma coisa

– Não, meu filho. Só no peito mesmo.

– E o que a senhora fez? Como passou a dor?

– Ah! Eu só tomei água. Muita água.

– Antes de te examinar, aí meu Deus! Ele vai perguntar pra mim!, doutora, gostaria de fazer alguma pergunta pra dona Áurea?

Nossa! Nossa! Nossa!

– Aham… A senhora lembra de ter comido alguma coisa diferente nesse dia? Pensando já em uma possível esofagite, dor de estômago, etc. 

– Não. Lembro de ter feito a mesma coisa de sempre.

Após os exames físicos…

– A senhora está com a pressão um pouco alterada. Vou solicitar um ECG pra garantir que está tudo bem, vamos verificar essa pressão por alguns dias e então ver o que faremos, tudo bem?

Ótimo! Mais uma consulta finalizada. A senhora fofinha deve ter tido uma indigestão e o médico está só querendo confirmar que não há nada no coração.

– Mas dona Áurea, ué! Não acabou a consulta?, eu percebi que a senhora está um pouco desanimada. Oi? Desanimada onde? Pirou? Ela vem toda simpá….

E então a dona Áurea começou a chorar.

– A rotina da senhora está sobrecarregando, né? Como assim? Ela disse que amava os netinhos! Aí meu Deus! Ela não pára de chorar, socorro! Onde tem lencinho? Pega esse aqui, dona Áurea.

– Está sim doutor. Não vejo mais sentido em nada. Não faço nada pra mim. Tenho vontade de sumir às vezes. Por favor, não chora! E não some!

– Temos um grupo de saúde mental aqui no posto. Acredito que vai fazer muito bem pra senhora vir conversar com o psicólogo. Desabafar vai ajudar a entender o que a senhora está sentindo. Gostaria de vir? Tô bege.

E assim, a dona Áurea sai do consultório, levando uns pedidos de exames e o horário do grupo, me deixando na sala com uma cara de espanto, boquiaberta, tentando entender em que lugar eu estava pra não ter entendido o que de fato ela precisava. Saio dessa experiência, aprendendo na prática que o paciente é muito mais do que um monte de possíveis doenças que precisam ser desvendadas. Ele é um complexo que precisa de análise integral e , acima de tudo, envolvimento para entender suas necessidades.

Mas ainda me pergunto, onde eu estava?

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