Histórias cotidianas

O caso dos “sem jeito”

Conversando com um pai na enfermaria, surgiu a pergunta ao grupo:- Vocês querem se especializar em quê?

Apareceram as respostas e brincadeiras que já estamos acostumadas. Pediatria, psiquiatria, anestesio, medicina de família…

– Você quer ser médica de família? O que isso faz?

Com o mesmo espanto de sempre quando dou essa resposta.

– Então, um médico de família trabalha nas Unidades de Saúde da Família, do Governo. É como um clínico geral que fica responsável por determinado território, mas que vai além da consulta médica. Ele é responsável também por ver se há problemas nessa área como epidemias, drogadição, abuso infantil…

– Ah! Mas esse povo não quer ser ajudado não. Eu cresci em comunidade e segui o caminho certo. Quem não seguiu é porque não quis.

– Olha, eu entendo o ponto de vista do senhor, mas também entendo que muitos ali simplesmente não tiveram alguém que se importasse com eles e mostrasse que o caminho poderia ser outro. Nesse meio há pessoas que não querem ser ajudadas? Sem dúvida! (Como em qualquer meio) Porém, também há muitas que querem e é pra elas que devemos lutar.

– Não sei… Talvez eu esteja endurecido pela minha profissão, mas não acho que vale a pena lutar não.
Queria muito ter tido tempo de conversar mais com esse senhor. Entender sua história de vida, os casos “sem solução” que encontrou pelo caminho… Concordo que muitos não querem ser ajudados, mas isso não é exclusividade das classes mais baixas e também não é a maioria. A diferença é que entre os mais favorecidos, o “encostado” é chamado de playboy, enquanto na periferia ele é o marginal… 
É muito angustiante ver o estigma que pessoas pobres financeiramente carregam sem ter culpa. Dói imaginar que meus pais talvez fossem chamados de marginais se crescessem nas mesmas condições hoje. Meu avô, o maior exemplo de humildade e humanidade que já tive, seria chamado de vagabundo… Afinal, retirante da Bahia que só foi ter sua primeira carteira de trabalho assinada já na terceira idade, mesmo sem nunca ter ficado sem trabalhar exaustivamente, só pode ter sido vagabundo! Só que não foi essa a história… Com certeza há muitos Olegários, Marias e Sebastiões por essa periferia precisando de uma ajudinha na saúde e tratamento digno para melhorar sua qualidade de vida. E àqueles que não querem, bom, estaremos lá, prontos para o momento que quiserem. E como dizia Elisa Lucinda: “…Minha esperança é imortal. Estão ouvindo? Imortal!”. Não desistam deles não, povo!

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