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O gosto amargo

Dona Divina, 73 anos.
Fez uma cirurgia bariátrica há 10 anos e, desde então, não consegue comer direito devido a um gosto amargo na boca.
Ao entrar no consultório, percebo que está magra excessivamente, algo que chamamos de Síndrome consuptiva.
– Boa tarde, dona Divina! Como a senhora passou da consulta passada até agora?
-Ah doutora! Tenho passado muito mal. Fiquei internada, operei de uma úlcera perfurada e continuo com uma fraqueza que me impede de fazer qualquer coisa.
– E como está a sua alimentação? Vi aqui no prontuário que a senhora não consegue comer direito há muito tempo…
– Não mesmo. Tudo tem um gosto ruim, desde que passei pela bariátrica. Então eu não como.
– Mas a senhora sente dor, desconforto ou é só o gosto mesmo?
– É só o gosto.
– Mas não tem na-di-nha que tenha um gosto melhor pra senhora?
– Ah, doutora! Eu como muito bem quando faço canja.
– Olha só como tem, então! E porque a senhora não faz canja mais vezes pra comer?
– É verdade, né?
– E o que mais? Feijão? Batata? Precisamos colocar mais calorias no seu prato.
– Ah, feijão não me desce! Mas a-do-ro grão-de- bico.
– Olha ai! Já temos mais um prato montado. A senhora gosta de couve?
– Gosto! Também gosto de brócolis, salada, fruta …
– Está vendo só! Em 1 minuto já montamos 2 refeições que a senhora consegue comer. Estou preocupada com o seu peso. Quero investigar se não tem mais algum motivo para a senhora emagrecer tanto, mas tudo indica que seja a sua alimentação mesmo. De qualquer forma, vamos combinar uma coisa? Eu faço a minha parte investigando por aqui e a senhora faz a sua se esforçando pra comer direito em todas as refeições, sem pular nenhuma.
– Combinado!
– Além disso, tem mais alguma coisa te perturbando?
– Tem sim… Meu marido vai ter que amputar o pé e não está aceitando. Ele está muito triste. Aí eu me preocupo cuidando dele e esqueço de cuidar de mim.
– E assim a senhora também fica muito triste?
– Ah, eu fico…
– Eu entendo e me solidarizo muito pelo que está passando, mas a senhora precisa se cuidar pra cuidar dele. Nenhum remédio no mundo vai fazer efeito direito se o seu corpo não estiver bem nutrido.
– Combinado! Vou cuidar de mim e dele.
– Além disso, vou dar uma cartinha pra senhora levar no posto porque preciso de ajuda para verem bem de perto como a senhora está tomando os remédios. A senhora consegue fazer isso?
– Ah, isso tudo eu consigo!
E com um abraço bem apertado, um sorriso orgulhoso de vó, a dona Divina se despediu.

No meio do caos que ocorre nos bastidores da nossa saúde, surgem esses encontros singelos relembrando o motivo de repetir, diariamente, a cada percalço: “você pode até me perturbar, mas mais forte ainda eu vou ficar”. Acho que ela não sabe, mas hoje foi a dona Divina quem cuidou de mim. 🤗

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