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O curativo dela em mim

Era uma noite de plantão, desses de final de ano que a gente custa a se preparar pra ir. Queria ficar em casa, curtindo o marido, cachorros, digerindo os mil problemas pessoais…

Como a responsabilidade não tem nada a ver com as minhas vontades, peguei jaleco, esteto, caneta, crachá e fui.

Aqui em Campinas temos céus incríveis no final do dia. Esse entardecer foi um deles. No caminho, enquanto aguardava o farol abrir, só ia me enchendo daquele laranja meio rosado invadindo o carro e o Sol se pondo lá pra frente, bem pra frente do hospital. Aí já me esqueci do motivo de não ter tido ânimo pra sair aquela noite.

Então cheguei ao hospital, peguei a lista de pacientes que deveria verificar e parti pelos corredores, sozinha! Adoro quando, como aluna, posso atuar sozinha, no meu tempo, sem me preocupar com o ritmo de outros colegas.
Entre tantos leitos visitados naquela noite, uma senhora me tocou.

Dona Divina*, 75 anos. Estava internada devido a uma fratura no fêmur. Minha função ali era só trocar os curativos e verificar se estava com alguma infecção.

Eu sempre chego perguntando o que ela aprontou para estar aqui, já quebrando o gelo da conversa no início. No seu caso, foi uma queda bem boba, mas que poderia ser justificada pela idade.

– E conta pra mim, a senhora está sentindo dor agora?

-Ai, estou.

– Onde? Mostra pra mim, por favor?

– Olha, antes não estava doendo, mas esse curativo aqui foi feito de forma diferente dos anteriores. Desde que fizeram, estou com uma dor me angustiando.

– Certo, vamos ver isso então.
Despois de verificar, não havia motivo para aquele local estar doendo, muito menos pelo curativo.

– Dona Divina, eu não encontrei nada aqui que me preocupasse, sem infecção e nem sinal de inflamação.

– Mas olha só, apenas de tirar o curativo já me aliviou! Não dá pra fazer o curativo do jeito que faziam antes?

– Claro, eu posso sim. A senhora me mostra o que faziam de diferente?

A difereça nada mais era do que dobrar uma vez mais a gaze, sem diferença na pressão, material ou área coberta. Ou seja, não havia motivo mesmo para a tal dor.
E então comecei a fazer os curativos da forma como ela me pediu, adaptando apenas para um jeito que protegesse melhor o local.

– Pronto, dona Divina! E agora? Ainda está sentindo dor?

– Olha doutora, que maravilha! Era o curativo mesmo que estava me machucando. Agora não sinto mais nada. Que deus te abençoe.

– Imagina, o importante é a senhora se sentir bem e tranquila pra cirurgia amanhã.

– Ah, mas eu estou com medo. Muito medo.

– Me conta do que a senhora tem medo.

– Primeiro, desse tal de ferro que vão colocar na minha perna. Só de pensar que vou andar sentindo um ferro dentro de mim já me dá agonia.

Então expliquei a cirurgia, o pós-operatório, que não deveria sentir dor depois de um tempo…

– Jura? Eu não vou sentir roçando isso em mim? Ai que felicidade! Isso estava me agoniando tanto.

– Que bom que a senhora ficou mais calma! Estou vendo que ainda tem um monte de dúvidas e que essas só o seu cirurgião vai poder te responder. Amanhã alguém da equipe cirúrgica vai vir conversar com a senhora e não deixa te levarem pra operação sem tirar todas as suas dúvidas, hein?

– Ai, pode deixar. Já vou começar a orar para Deus iluminar o médico que vai me operar.

– Vai orar? Ah, então pode conversar aí com Deus pedindo pra pelo menos umas 3 pessoas!

– Jura? Não é só um médico que fica lá comigo?

– Que nada! Ó, tem o médico chefe, o auxiliar, o instrumentador, o anestesista, o técnico de enfermagem… e talvez tenha até um radiologista! Então sua listinha pra Deus está bem grande!

Então ela soltou um sorriso enorme e respondeu:
– Todas essas pessoas só pra cuidar de mim? Quanta gente! Que maravilha… Vou orar por todos eles.

– E me diz, a senhora está comendo direitinho? Eu sei que comida de hospital nem sempre é gostosa, mas precisa comer bem para ajudar o seu corpo se recuperar depois da cirurgia.

– Ah, mas eu adorei a comida do hospital! Eu como tudo!!! Estou magra assim pelo câncer, mas não é pela comida não.

Nessa hora respiro, engulo a seco, penso um “oi” e tento continuar com naturalidade, depois de já amar aquela senhorinha:

– Ah, a senhora fez tratamento de câncer? Fez radio e quimio?

– Fiz doutora. Fiz tudo isso aí, mas agora o médico falou que não adianta mais nada. Estou só com paliativo.

– Entendi, eu vi aqui que foi num lugar só ?

– Foi no início, mas agora está no corpo todo, em todos os ossos. Por isso que eu quebrei a perna.
Então fui olhar sua radiografia e vi o tumor consumindo o local da fratura.

– Poxa dona Divina, eu sinto muito por isso estar acontecendo com a senhora. E quer saber, esse é mais um motivo pra senhora continuar comendo direitinho e mantendo a sua fé para sair desse hospital o mais rápido possível.

– Obrigada, minha filha. Eu também acho.
Deixa eu ver de novo o seu nome. Ah… também vou orar por você. Que se forme uma médica muito boa daqui a seis meses.

– Eu agradeço seus votos do fundo do meu coração. Eu também desejo que amanhã a sua cirurgia seja um sucesso e que saia daqui pra sua casa o mais rápido possível!

E assim nos despedimos. A dona Divina permaneceu ali no leito com seu olhar terno e doce e eu parti pro último paciente da noite.

Nesse dia eu realmente não estava bem para trabalhar em qualquer coisa, muito menos com saúde. Só que a gente precisa dar aquela rezadinha pedindo forças pra nunca causar o mal, colocar uma máscara de alegria e seguir, pois colegas e pacientes não têm culpa dos nossos problemas. Voltei pra casa outra pessoa.

Quando eu falo que os pacientes curam seus cuidadores, ainda tem gente que não acredita em mim. Obrigada dona Divina! Naquele dia você cuidou muito bem de mim!

*Obviamente, nome e detalhes das doenças foram modificados para preservar a paciente.

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