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Folia de reis

Já se passaram alguns dias da data festiva, mas hoje relembrei vivamente de uma cena que vivi em Nepomuceno – MG quando pequena.

Lembro-me de estar com os pés descalços, roupa suja e encardida de criança de férias na roça, boca suja do bagaço de laranja que o meu avô Geraldino insistia que ainda cabia um pouco mais naquele estômago minúsculo: “Não engole o bagaço caruncho (ele me chamava assim) porque aí vai caber mais!” Só que não cabia e eu sempre ficava agonizando jogada no chão contando os formatos das nuvens no céu, entre “ais” pelo estômago lotado, entre um e outro suspiro.

Em um desses dias, estava brincando no quintal quando ouvi, ao longe, um batuque, violas, uma cantoria que não conseguia distinguir. Logo corri pra rua e vi diversas pessoas fantasiadas (e algumas com máscaras que aterrorizavam minha imaginação infantil). Imediatamente corri para dentro da casa chamando pelo meu pai e avô.

Com a maior calma do mundo, minha família se aproximou do portão aguardando a chegada daquele povo tão barulhento.

Quando chegaram, pediram autorização para entrar no quintal, entregaram uma bandeira ao dono da casa e começaram uma dança e cantoria empolgante que a minha memória custa a esquecer.

Logo eu soube que aquilo era a Folia de Reis*. Ela está associada aos três Reis Magos (Baltazar, Gaspar e Melchior) que conforme mencionado na Bíblia Sagrada, vieram ao encontro de Jesus Cristo durante seu nascimento, guiados por uma estrela no céu. Os Magos presentearam o menino Jesus com ouro, incenso e mirra, representando a realeza, a divindade e a imortalidade, respectivamente. Segundo a história, cada um deles possuía uma cor de pele: negra, morena e branca, significando toda a humanidade. E assim eram representado pelas máscaras.

Só me recordo do olhar brilhante do meu avô, simples, orgulhoso por tê-los ali abençoando o seu lar. No final foi solicitada uma ajuda financeira, de qualquer quantia que a pessoa tivesse. Recordo-me do meu pai e primos ofertando quantias módicas, enquanto o meu avô que, sem dúvida alguma, era o mais humilde entre todos nós, lascou uma nota alta, deixando todos com vergonha e os fazendo sentir a necessidade de contribuir com um pouco mais.

Por quê eu lembrei dessa história tão delicinha da minha infância hoje? Não sei bem… Talvez seja porque as guloseimas em excesso da ceia, encontros forçados e de aparências e presentes exagerados tenham nos afastado demais da verdadeira essência dessa época.

Desejo por aí, que o amor prevaleça, a gratidão floresça e, acima de tudo, que a fé em dias melhores nunca desapareça.

Fonte: https://www.infoescola.com/datas-comemorativas/folia-de-reis/, acesso em 25/12/2019.

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